Cotidiano

Zuenir Ventura morre aos 95 anos no Rio de Janeiro

Jornalista e escritor teve carreira de mais de seis décadas e marcou a literatura brasileira com obras como “1968 – O ano que não terminou” e “Cidade Partida”

O jornalista e escritor Zuenir Ventura morreu aos 95 anos nesta terça-feira (22), no Rio de Janeiro. A informação foi divulgada pela Academia Brasileira de Letras (ABL), da qual ele era integrante desde 2014. Segundo a instituição, a causa da morte foi uma pneumonia.

Zuenir deixa a mulher, Mary Ventura, e os dois filhos, o jornalista Mauro Ventura e a editora Elisa Ventura. O corpo será velado na quarta-feira (23), na Academia Brasileira de Letras, e enterrado no mausoléu da ABL, no Cemitério São João Batista.

Natural de Além Paraíba, em Minas Gerais, Zuenir teve uma trajetória profissional diversificada antes de se consolidar no jornalismo. Foi pintor de parede, office-boy, jogador de basquete, arquivista e professor universitário.

Na Faculdade de Jornalismo, teve entre seus professores Manuel Bandeira, Alceu Amoroso Lima e Cleonice Berardinelli. A aproximação com alguns desses intelectuais contribuiu para os primeiros passos de sua carreira.

Celso Cunha, professor da Faculdade de Jornalismo, o convidou para dar aulas de português. Mais tarde, Hélcio Martins o indicou para trabalhar no arquivo da Tribuna da Imprensa, onde iniciou sua trajetória profissional no jornalismo.

Trajetória na Academia Brasileira de Letras

Zuenir foi eleito para a Academia Brasileira de Letras em 30 de outubro de 2014, na sucessão de Ariano Suassuna, e passou a ocupar a Cadeira nº 32. A própria ABL registra o jornalista como ocupante da cadeira desde então.

Ao longo de mais de seis décadas de atividade jornalística, construiu uma produção marcada pela cobertura de acontecimentos políticos e pela abordagem de temas sociais relevantes do país.

“1968 – O ano que não terminou”

Em 1988, Zuenir publicou “1968 – O ano que não terminou”, livro que se tornou uma de suas obras mais conhecidas. A publicação também serviu de inspiração para a minissérie “Os anos rebeldes”.

O capítulo “Um herói solitário” deu origem ao filme “O homem que disse não”, produzido para a televisão francesa pelo cineasta Olivier Horn.

No início de 1989, Zuenir foi ao Acre como repórter especial para investigar o assassinato do ambientalista Chico Mendes. A cobertura resultou em uma série de reportagens premiada.

Durante a apuração, o jornalista também assumiu a tutela de Genésio, então com 13 anos e apontado como principal testemunha do caso. Segundo relato de Zuenir, o garoto permanecia sob proteção policial e continuava ameaçado pelos responsáveis pelo crime.

“Um dia, cheguei com o Genésio debaixo do braço, apresentei para minha mulher e meus dois filhos. Ele ficou sob minha tutela até os 18 anos.”

— Zuenir Ventura

“Cidade Partida” retratou desigualdade no Rio

Publicado em 1994, “Cidade Partida” tornou-se outra obra de destaque na trajetória de Zuenir Ventura. O livro aborda violência, desigualdade e divisão social no Rio de Janeiro a partir da experiência do jornalista em Vigário Geral.

O local havia sido palco de uma chacina em 1993, quando 21 pessoas foram mortas. A obra recebeu o Prêmio Jabuti e se tornou uma referência na discussão sobre os contrastes e conflitos sociais da cidade.

Zuenir também recebeu o Prêmio Esso e o Prêmio Vladimir Herzog, dois dos principais reconhecimentos do jornalismo brasileiro. O troféu do Vladimir Herzog foi entregue pela viúva do jornalista, amigo de Zuenir assassinado durante a ditadura.

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