Drones com bombas mudam confrontos do crime organizado no Rio
Levantamento da Polícia Civil aponta pelo menos 17 ataques com drones desde 2025, sendo 12 registrados somente em 2026
Os drones passaram a ocupar um espaço cada vez mais relevante nos confrontos envolvendo organizações criminosas no Rio de Janeiro. Além do monitoramento de territórios e da movimentação de forças de segurança e grupos rivais, os equipamentos já são utilizados para transportar armas e lançar explosivos.
Um levantamento interno da Polícia Civil, baseado em registros de ocorrências, identificou pelo menos 17 ataques com uso de drones desde o ano passado. Desse total, 12 ocorreram somente neste ano.
A tecnologia também é empregada pelas forças de segurança em operações e ações de inteligência. Os equipamentos ajudam no monitoramento de áreas, na identificação de traficantes e milicianos e no planejamento de incursões em comunidades.
Segundo Roberto Uchôa, conselheiro do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e pesquisador na Universidade de Coimbra, a expansão desse tipo de equipamento representa uma mudança na dinâmica dos confrontos.
“É uma nova mudança de paradigma. E, assim como foi naquela época, é algo que não vai regredir mais. Pelo contrário, pode ter uma escalada.”
— Roberto Uchôa
A comparação feita pelo pesquisador é com a chegada dos fuzis às comunidades, na década de 1980. Na avaliação dele, assim como as armas de maior poder de fogo alteraram os confrontos e exigiram mudanças nas estratégias das forças de segurança, os drones podem produzir efeito semelhante.
Drones já são usados para monitoramento
Na disputa por territórios, os equipamentos já aparecem em ações de monitoramento e planejamento de ataques.
Em uma troca de mensagens obtida pela polícia no início do ano passado, um traficante enviou a Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, imagens feitas por drone de uma comunidade dominada pelo Terceiro Comando Puro (TCP), em Irajá, na Zona Norte.
Em outra conversa, Doca recebeu imagens produzidas por um drone equipado com câmera térmica. As imagens mostravam a movimentação em um dos acessos ao Complexo da Penha, área apontada como um dos principais redutos da facção.
Embora grande parte dos ataques esteja relacionada a disputas entre grupos criminosos, os drones também passaram a ser utilizados contra agentes de segurança.
Em julho, uma equipe do 16º BPM foi alvo de explosivos lançados por drones durante uma operação na comunidade Cinco Bocas, no Complexo de Israel, área controlada pelo Terceiro Comando Puro (TCP).
Potencial de destruição preocupa autoridades
O secretário da Polícia Militar, coronel Sylvio Ricardo Ciuffo Guerra, afirmou que o emprego de drones com explosivos reproduz estratégias observadas em conflitos armados em diferentes partes do mundo.
No Rio, segundo ele, o risco é ampliado pelo fato de os ataques ocorrerem em áreas densamente povoadas.
“Quando uma granada é lançada no interior de uma comunidade, o potencial de destruição e de danos às pessoas é enorme. Por isso, o investimento em equipamentos e tecnologias antidrones é fundamental para que possamos realizar nossas operações com mais segurança, protegendo nossos policiais e quem vive nessas comunidades.”
— Sylvio Ricardo Ciuffo Guerra
Criminosos utilizam adaptações em drones comerciais para transformá-los em equipamentos capazes de liberar explosivos a distância. Um dispositivo originalmente utilizado para soltar pétalas em cerimônias, por exemplo, teria sido adaptado e acoplado a um drone, com acionamento por sensor de luz.
Segundo a Coordenadoria de Operações com Aeronaves Não Tripuladas da Polícia Civil, 31 drones foram apreendidos neste ano com pessoas suspeitas de integrar organizações criminosas.
O baixo custo para adaptar drones comerciais também é apontado em relatório da ONG Armed Conflict Location & Event Data Project (ACLED), que analisou o uso desse tipo de equipamento por organizações criminosas na América Latina.
De acordo com o levantamento, a adaptação de drones comerciais em armas pode ser relativamente simples, enquanto sistemas de detecção e bloqueio de sinais exigem equipamentos mais caros e complexos.
Especialistas ouvidos pelo GLOBO também alertam para a possibilidade de organizações criminosas deixarem de utilizar apenas adaptações improvisadas e passarem a empregar equipamentos mais sofisticados.
“É só olhar para o que tem sido utilizado em outros cenários, como na Colômbia e na Ucrânia, onde já sabemos que há muitos brasileiros atuando. Se essas pessoas retornarem e repassarem esse conhecimento, vamos criar sério problema no futuro.”
— Roberto Uchôa
Facções também procuram equipamentos antidrones
As organizações criminosas também passaram a buscar recursos capazes de detectar drones.
No mês passado, após uma troca de tiros entre policiais militares e traficantes na comunidade do Corte 8, em Duque de Caxias, na Baixada Fluminense, agentes encontraram com integrantes do Comando Vermelho (CV) um equipamento capaz de identificar a presença de drones.
O grupo estaria se preparando para invadir a região. A apreensão indicou que, além de utilizar drones, criminosos também buscam formas de impedir o monitoramento realizado por esses equipamentos.
Uma denúncia apresentada pelo Ministério Público Federal (MPF) contra o ex-deputado estadual Thiago Raimundo de Oliveira Santos, conhecido como TH Jóias, também cita negociações envolvendo equipamentos antidrones.
No documento, o ex-assessor Luiz Eduardo Cunha Gonçalves, conhecido como Dudu, aparece em conversas com um dos chefes do Terceiro Comando Puro (TCP) sobre a aquisição desse tipo de equipamento.
Em uma das conversas, Wallace da Costa Trindade, conhecido como Lacoste, envia um áudio para Dudu:
“E o identificador de drone? Tô precisando, cara. Andando muito drone pra lá e pra cá.”
— Wallace da Costa Trindade, segundo denúncia do MPF
A denúncia afirma ainda que os dispositivos eram comprados pela internet e posteriormente repassados a traficantes.
Em outra conversa incluída na investigação, TH Jóias recebe uma foto com R$ 55 mil acompanhada da mensagem:
“Da bazuca dos drones.”
— Mensagem citada na denúncia do MPF
Segundo o Ministério Público Federal, o equipamento teria sido vendido para integrantes do Comando Vermelho.
Forças de segurança buscam ampliar resposta
O delegado Fabrício Oliveira, da Coordenadoria de Recursos Especiais (Core), defende que as forças de segurança tenham acesso a sistemas capazes de detectar e neutralizar drones.
“A resposta precisa acompanhar a velocidade da ameaça. A burocracia não pode determinar o ritmo da proteção de policiais e da população. É urgente que o estado supere a morosidade burocrática para colocar nas mãos das forças de segurança os recursos necessários para detectar, localizar e neutralizar esses drones, com protocolos compatíveis com o ambiente urbano.”
— Fabrício Oliveira
O governo do Rio iniciou, no ano passado, um processo para adquirir equipamentos antidrones. Segundo o Governo do Estado, a iniciativa foi interrompida após mudanças na regulamentação federal relacionada ao uso de radiofrequências desses equipamentos.
O Ministério da Justiça informou que está adquirindo sistemas antidrones para repassar aos estados onde foram registrados casos de utilização da tecnologia por organizações criminosas em ataques contra pessoas e edificações.
“O primeiro contrato já foi assinado e, em breve, alguns equipamentos estarão à disposição das forças de segurança pública do Rio de Janeiro e dos demais estados.”
— Ministério da Justiça
Para Roberto Uchôa, a resposta ao avanço dos drones não deve se limitar à aquisição de tecnologia. O pesquisador também defende ações voltadas aos explosivos e às redes responsáveis pelo fornecimento desses materiais.
“O que não dá para fazer é repetir com os drones o que a gente fez com os fuzis: fingir que está combatendo ou fazer de forma errada e deixar que ele se agrave ao longo do tempo.”
— Roberto Uchôa





