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Pesquisadores internacionais estudam céu e sambaqui em Saquarema

Grupo com cerca de 20 cientistas visitou sítio arqueológico e observou o pôr do sol antes do equinócio da primavera

Cerca de 20 pesquisadores do Brasil e de outros países da América Latina estiveram em Saquarema para uma visita técnica e científica ao Sítio Arqueológico do Sambaqui da Beirada, em Barra Nova. Integrantes da Sociedade Interamericana de Astronomia das Culturas (SIAC), eles também conheceram a Igreja Matriz de Nossa Senhora de Nazareth.

A visita teve como objetivo promover a troca de conhecimentos entre pesquisadores e ampliar os estudos sobre os povos que habitaram Saquarema em períodos pré-coloniais.

O principal momento da programação ocorreu no sábado, quando o grupo esteve no Sambaqui da Beirada para observar o pôr do sol às vésperas do equinócio da primavera. A data, que ocorre em 22 de setembro, marca o fim do inverno e é caracterizada pela duração equivalente do dia e da noite, com aproximadamente 12 horas cada.

Durante a observação, os pesquisadores analisaram o alinhamento do sol poente com a paisagem local, nas proximidades do Pico do Cedro, na Serra do Mato Grosso.

Relação entre o sambaqui e a paisagem

A localização do Sambaqui da Beirada pode indicar uma relação entre o monumento arqueológico e a paisagem da região. Há mais de 4.500 anos, os povos sambaquieiros de Saquarema construíram no local estruturas formadas por conchas, restos de moluscos, animais marinhos e elementos da fauna local utilizados na alimentação.

Esses espaços também eram usados em rituais e enterramentos do grupo.

Sambaquis são monumentos arqueológicos construídos por grupos humanos que habitavam o litoral brasileiro antes da chegada dos grupos indígenas encontrados pelos primeiros colonizadores europeus. O termo tem origem na língua Tupi e reúne as palavras “tamba”, que significa concha, e “ki”, monte, formando a expressão “monte de conchas”.

A relação entre os monumentos e os corpos celestes está entre as hipóteses atualmente pesquisadas. Segundo Marcos Davi Duarte, doutor em Arqueologia pelo Museu Nacional da UFRJ e pesquisador em Arqueoastronomia, a localização dos sambaquis pode ter relação com aspectos da paisagem e com os movimentos do céu.

“Uma das hipóteses em pesquisa é a de que a escolha da posição espacial dos sambaquis tenha relação com os aspectos da paisagem local e movimentos de corpos celestes. Num primeiro momento, tal localização sugere uma preocupação com relação ao sol. Sua ocupação pode ter sido pensada, em relação à localização desses monumentos de acordo com as mudanças de estação, por exemplo. Entretanto, muito embora sejam promissoras, as pesquisas ainda estão em seu início de coleta de dados e estudos. A expectativa é que avancemos ainda mais no que conhecemos sobre os sambaquis, iniciando pelo Beirada. Com essa visita, a região de Saquarema e seus patrimônios arqueológicos entram no radar de investigadores internacionais.”

— Marcos Davi Duarte

Duarte integra a equipe do Museu Nacional que, em parceria com a Prefeitura de Saquarema, prepara a nova exposição do Sítio Arqueológico do Sambaqui da Beirada.

A diretora do espaço, a historiadora Vanderlea Maria da Silva, também destacou a importância da presença dos pesquisadores internacionais em Saquarema.

“A vinda desses cientistas contribui para os avanços nos estudos sobre esses grupos humanos pré-coloniais. Ainda há muito mistério sobre como eles viviam, mas, agora a gente também está atento à possibilidade de que eles tinham um saber astronômico rudimentar. Ou seja, é preciso olhar não só para o solo, mas também para os céus a fim de compreender um pouco sobre um contexto do cotidiano dos sambaquieiros. Portanto, receber esses pesquisadores traz uma projeção internacional para Saquarema e ajuda na produção de conhecimento para esta e as próximas gerações, a partir de outras perspectivas.”

— Vanderlea Maria da Silva

Visita reuniu pesquisadores após encontro no Rio

A visita a Saquarema ocorreu após o Encontro Anual da SIAC, realizado na cidade do Rio de Janeiro. O presidente da instituição, o arqueólogo e antropólogo Alejandro Martín López, da Universidade de Buenos Aires, ressaltou a importância de analisar a relação do sítio com a paisagem e o céu.

“É importante que a gente entenda como esse local se relaciona com a paisagem, incluindo o céu. As pessoas não punham sítios de relevância em qualquer lugar e isso pode ter razões utilitárias ou simbólicas. Tem a ver com a construção de uma paisagem.”

— Alejandro Martín López

A visita ao Sambaqui da Beirada deve fornecer novos elementos para as pesquisas sobre a ocupação pré-colonial da região. A expectativa é ampliar o conhecimento científico sobre os sambaquis e contribuir para os estudos e a preservação do patrimônio arqueológico e arqueoastronômico de Saquarema.

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