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Novos negócios e moradias impulsionam retomada do Centro do Rio

Novos empreendimentos residenciais, restaurantes e outros negócios começam a ocupar imóveis vazios no Centro do Rio, em um movimento de recuperação após a queda de atividade provocada pela pandemia.

O Centro do Rio começa a apresentar sinais de recuperação após o esvaziamento provocado pela pandemia de Covid-19. Novos moradores, obras residenciais, restaurantes, bares e outros estabelecimentos comerciais estão modificando a ocupação de ruas e imóveis que passaram anos com pouca atividade.

Um dos principais movimentos ocorre no mercado residencial. Na Rua Sete de Setembro, o antigo Shopping Vertical, que tinha 64 lojas, passa por um retrofit para receber 172 estúdios, com áreas entre 28 e 40 metros quadrados. As unidades foram vendidas na planta a partir de R$ 360 mil. A previsão é que as obras durem 18 meses.

“O espaço é excelente. Fica a cinco minutos do Aeroporto Santos Dumont. Um turista também pode pegar o metrô e chegar rapidamente às praias da Zona Sul.”
— João Paulo Matos, CEO da construtora Calçada

Segundo estimativa do Sindicato da Indústria da Construção Civil (Sinduscon), 8.903 unidades residenciais foram licenciadas desde 2021, quando foi lançado o programa Reviver Centro. Até julho deste ano, cerca de 3,7 mil já estavam prontas ou em construção.

Do total licenciado, 60% das unidades foram adquiridas por investidores, enquanto as demais têm como destino a moradia. Para o Sinduscon, a conclusão dos atuais empreendimentos pode abrir espaço para projetos residenciais maiores.

“Desse total, 60% foram adquiridos por investidores, e o restante está sendo comprado para ser moradia de fato. Conforme for terminando o estoque de estúdios, a tendência é haver mais oferta de residenciais maiores.”
— Claudio Hermolin, presidente do Sinduscon

Novos empreendimentos e ocupação de imóveis

Na Rua São José, no Buraco do Lume, o projeto Connect Square prevê um empreendimento de uso misto com 584 unidades. A construção deve começar em janeiro e a maior parte das unidades já foi vendida.

Próximo dali, o edifício modernista Aliança da Bahia, tombado na Rua Araújo Porto Alegre, teve suas antigas salas comerciais convertidas em lajes corporativas.

No Largo de São Francisco, a Ordem dos Mínimos de São Francisco de Paula planeja construir um edifício comercial em frente à igreja. O terreno, anteriormente utilizado como estacionamento, fica no Corredor Cultural e o projeto busca recursos do programa Reviver Pró-Apac, voltado ao incentivo de novos negócios.

Gastronomia amplia presença no Centro

A recuperação também aparece na gastronomia. No Beco das Sardinhas, o empresário Raphael Vidal prepara quatro novos restaurantes. O Bife Gracioso e o Pensão devem abrir ainda este mês em um sobrado da Rua Miguel Couto. Em outubro, estão previstas as inaugurações do Fumeiro Santa Rita e do Galeto Comendador, no Largo de Santa Rita.

“A proposta é contar por meio deles a história da culinária carioca. O Gracioso, por exemplo, será especializado no preparo de bifes (fritos e à milanesa, entre outros) e faz referência a um antigo restaurante no Porto. Já a comida de pensão é uma tradição no Centro, assim como as galeterias.”
— Raphael Vidal, empresário

Na Rua do Lavradio, a Casa Jovê será instalada no térreo de um imóvel restaurado. O gastrobar terá cardápio de culinária brasileira e deve abrir este mês. No segundo andar, a partir de novembro, o espaço receberá o Pérola, com palco para shows e área de exposições.

“Morei em cidades de 11 países, e há uma tendência mundial de revitalização de áreas com infraestrutura degradada. Aconteceu, por exemplo, com bairros de Baku (Azerbaijão) e Barcelona (Espanha). Por isso, apostei no Rio.”
— Claudio Franco, proprietário

Na Rua do Senado, dois novos estabelecimentos estão em fase final de obras em um casarão restaurado. O Madame Lee, de culinária asiática, e o Feline, especializado em vinhos e gastronomia mediterrânea, têm inauguração prevista para outubro.

“Investimos ao observar que outros negócios que abriram recentemente em casarões restaurados, como a Destilaria Maravilha e o Mercado Central (2025), foram bem-sucedidos.”
— Larissa Lopes, sócia do empreendimento

A mesma região também ganhou o Quintal da Clementina, casa de samba e gastronomia inaugurada recentemente. Entre as atrações está o Roda de Crioulo, previsto para ocorrer às sextas-feiras.

Lapa aposta em turismo e novos moradores

Na Lapa, empresários também apostam na recuperação da região. Gustavo Marins, proprietário do centenário Bar Brasil e vice-presidente do Polo Rio Antigo, aponta o potencial de valorização do bairro, citando as obras previstas para a criação de um boulevard no entorno da Escadaria Selarón.

“Um investimento atrai outros. Há espaço não só para moradias como para hospedagem por aplicativos. Muitos turistas só entram nos quartos para dormir e desejam diárias mais em conta. Não se incomodam em ficar fora da Zona Sul.”
— Gustavo Marins, empresário

A Glória Participações planeja abrir, em 2027, um hostel na Rua Mem de Sá com 120 camas. A holding administra um hotel na Lapa e possui outros imóveis na região.

“Temos 22 imóveis no bairro e ainda estamos decidindo os melhores projetos.”
— Daniel Pierro, gestor do fundo

Outro investimento envolve um terreno de 3,3 mil metros quadrados na Rua Teotônio Regadas, próximo à Escadaria Selarón. Os novos proprietários avaliam construir um empreendimento residencial no local.

Comércio depende da chegada de moradores

A expectativa de aumento no número de moradores também influencia novos negócios. A padaria artesanal Grão Napoli abriu uma unidade há cerca de 40 dias no térreo do shopping Paço do Ouvidor, na região da Rua do Ouvidor.

“O conceito é de padaria gourmet, com preços mais em conta. Se fosse para atender apenas funcionários que trabalham no Centro, não compensaria, já que só haveria demanda nos horários de entrada e saída do expediente. A aposta é no aumento de turistas e moradores.”
— Carlos Diniz, sócio da unidade

Vacância de escritórios ainda é desafio

Apesar dos novos investimentos, a ocupação dos imóveis comerciais ainda está abaixo dos níveis anteriores à pandemia. Dados da Associação Brasileira de Administradores de Imóveis (Abadi) apontam que 7,4 mil das 22,6 mil salas comerciais do Centro estão vazias, o equivalente a 33%.

Em 2021, durante a pandemia, a taxa de vacância chegava a 40%. A expectativa da entidade é que a ocupação avance gradualmente nos próximos anos, acompanhando a entrega dos novos empreendimentos residenciais.

“O que se espera é que, à medida que novos residenciais fiquem prontos, esses pontos ociosos sejam ocupados por profissionais liberais e prestadores de serviços.”
— Marcelo Borges, presidente da Abadi

Outro obstáculo apontado pelo mercado é o custo de manutenção dos imóveis. Segundo Claudio Castro, da Sérgio Castro Imóveis, 83 sobrados e pequenos prédios foram vendidos no Centro desde 2024.

“O problema é que muitos desses imóveis não têm isenção de IPTU porque não são tombados. Além disso, as despesas com condomínio são muito elevadas.”
— Claudio Castro, empresário

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