Filme sobre a Ilha da Conceição leva Niterói ao Filmambiente
Documentário de Liliane Mutti aborda impactos da industrialização e da Ponte Rio–Niterói sobre o território e a relação dos moradores com o mar
A Ilha da Conceição, em Niterói, é o ponto de partida de “Quanta Reza Será Preciso para Um Simples Banho de Mar”, novo documentário da cineasta Liliane Mutti. O longa investiga as transformações provocadas pela industrialização da Baía de Guanabara e pela construção da Ponte Rio–Niterói.
O filme foi selecionado para o Filmambiente – Festival Internacional do Audiovisual Ambiental e terá sua estreia no evento. A produção também será exibida no Estação NET Botafogo, no Rio de Janeiro, no sábado (26), às 21h, com debate após a sessão.
O festival reúne 400 filmes de 60 países e tem programação voltada a questões ambientais, sustentabilidade e diferentes relações entre sociedade e meio ambiente. Parte das atividades será realizada no Cine Arte UFF.

Niterói como cenário e inspiração
Este é o segundo longa de Liliane Mutti que tem Niterói como cenário. A cineasta, que estudou na Universidade Federal Fluminense (UFF), mantém uma relação antiga com a cidade e já destacou sua influência em sua trajetória cinematográfica.
“Para mim, Niterói é cinema. Para onde eu olho, vejo cinema. Gosto muito de Jurujuba, aquela praia, os pescadores, aquele tempo… Gosto do Caminho Niemeyer. Penso em uma ficção ali. Todos os caminhos me levam a Niterói porque acho a cidade cinematográfica.”
— Liliane Mutti, cineasta
Em “Quanta Reza”, a diretora volta o olhar para a Ilha da Conceição e para as mudanças provocadas por grandes projetos de infraestrutura. A produção questiona como conciliar desenvolvimento, direito à cidade e preservação de territórios costeiros.
Segundo Liliane, a proposta não é negar a importância da Ponte Rio–Niterói, mas analisar o que ficou fora da perspectiva oficial sobre a construção da obra.
“O cinema pode recuperar aquilo que ficou fora da imagem oficial do progresso. E essa memória pode nos ajudar a prevenir erros em novas grandes intervenções, como a Ponte Salvador–Itaparica, na Bahia.”
— Liliane Mutti, cineasta

Relação com a UFF
A trajetória da diretora também se conecta diretamente à produção do documentário. Antes de trabalhos como “Miúcha, a Voz da Bossa Nova”, “Madeleine à Paris”, “Salut, mes ami.e.s!” e “A Noite de Alaíde”, Liliane foi estudante da UFF.
No novo longa, essa relação aparece novamente por meio do LUPA – Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da UFF, que está entre os apoiadores do projeto.
“Minha ligação com Niterói antecede este filme. Fui estudante da UFF e uma parte fundamental da minha formação cinematográfica aconteceu aqui, nos cineclubes e na tradição cinematográfica da cidade.”
— Liliane Mutti, cineasta
A diretora também usa a Ponte Rio–Niterói como elemento para mudar a perspectiva sobre a paisagem.
“Durante anos eu atravessei aquela ponte. Neste filme, quis parar de atravessá-la e olhar para baixo. Quem mora ali? O que existia antes? Onde estavam as praias? O que aconteceu com essas águas?”
— Liliane Mutti, cineasta
Angelo Morse dá voz ao território
Entre os participantes do documentário está Angelo Morse, ator, humorista, arte-educador e artista plástico criado em Niterói.
Conhecido por transformar situações cotidianas da cidade em material artístico, Morse também participa da produção como uma das vozes que conduzem o espectador pela realidade da Ilha da Conceição.
Sua presença combina humor, observação e pertencimento para abordar questões ambientais e sociais relacionadas ao território.
Em setembro de 2026, Morse também participou do festival de humor Só Riso, em Niterói, com o espetáculo “Eu Falo Mas Ninguém Escuta”, apresentado na Sala Nelson Pereira dos Santos.
Memórias da Ilha e da Baía de Guanabara
Filmado em preto e branco, o longa acompanha moradores da Ilha da Conceição e atravessa diferentes períodos da história da Baía de Guanabara.
Memórias dos antigos banhos de mar aparecem ao lado de imagens de estaleiros, embarcações abandonadas, pesca e atividade industrial, mostrando as mudanças ocorridas na paisagem ao longo das últimas décadas.
A Ponte Rio–Niterói, inaugurada em 1974 durante a ditadura militar, também ocupa papel central na narrativa. Em vez de se concentrar apenas na estrutura que conecta Rio e Niterói, o documentário direciona a câmera para as comunidades localizadas sob a ponte e para os efeitos das transformações sobre o território e o mar.
Questões ambientais ultrapassam a Ilha
A história da Ilha da Conceição é apresentada no filme como parte de um problema ambiental mais amplo. A Baía de Guanabara sofre há décadas com os efeitos da urbanização, deficiências de saneamento, lançamento de esgoto doméstico, resíduos sólidos, óleo e efluentes relacionados às atividades industriais e portuárias.
O Comitê da Baía de Guanabara aponta o histórico de ocupação desordenada e problemas de esgotamento sanitário entre os fatores relacionados à degradação dos recursos hídricos da região.
A qualidade da água também varia entre diferentes áreas da Baía, influenciada por fatores como chuva, marés, ventos, lançamento de esgoto e circulação da água. O INEA mantém monitoramento da qualidade da água da Baía e de sua bacia.
Estudo do Ipea sobre a governança da despoluição da Guanabara também aponta esgoto doméstico, efluentes industriais, óleo e resíduos sólidos entre as fontes históricas de degradação, além de problemas como destruição de manguezais, ocupação das margens, assoreamento e aterros irregulares.
Do problema ambiental à memória dos moradores
É a partir dessa realidade que “Quanta Reza Será Preciso para Um Simples Banho de Mar” desloca a discussão ambiental para o cotidiano dos moradores.
“Uma praia desaparece primeiro da paisagem e depois começa a desaparecer da memória. Para mim, uma das questões mais fortes do filme é perceber que uma geração se lembra de entrar no mar diante de casa e outra cresceu sem imaginar esse mesmo gesto.”
— Liliane Mutti, cineasta
O documentário tem patrocínio da Secretaria de Economia Criativa e da Secretaria das Culturas de Niterói e apoio do Instituto das Artes de Niterói, do LUPA – Laboratório Universitário de Preservação Audiovisual da UFF e do CTAv – Centro Técnico Audiovisual do Ministério da Cultura.
O longa foi selecionado para distribuição em chamada do Ministério da Cultura/Secretaria do Audiovisual. A produção é da baiana Toca Filmes, em parceria com as produtoras niteroienses Realiza Cultura e Jou Jou.
Serviço
“Quanta Reza Será Preciso para Um Simples Banho de Mar” tem 79 minutos, é uma produção brasileira de 2026, dirigida por Liliane Mutti e com narração de Angelo Morse.
A sessão no Filmambiente acontece no sábado (26), às 21h, no Estação NET Botafogo, no Rio de Janeiro, seguida de debate com representantes da equipe.





