
A cada 33 roubos no Rio, apenas um termina em prisão em flagrante
Dados do ISP mostram grande diferença entre registros de crimes e prisões no estado; no estelionato, há uma captura para cada 323 ocorrências
Mais de 1,3 milhão de ocorrências de crimes foram registradas nas delegacias do Estado do Rio de Janeiro entre janeiro de 2025 e março de 2026. No mesmo período, pouco mais de 60 mil adolescentes foram apreendidos ou adultos foram presos em flagrante.
A comparação dos dados do Instituto de Segurança Pública (ISP) mostra uma diferença significativa entre os crimes mais registrados e aqueles que mais resultam em prisões. Furto, estelionato e roubo representam cerca de quatro em cada dez ocorrências, mas têm participação proporcionalmente menor entre as detenções.
No caso dos roubos, foram 3.775 prisões e apreensões, considerando também as tentativas, diante de um número muito maior de registros. A proporção é de aproximadamente uma prisão para cada 33 ocorrências.
A diferença é ainda maior no estelionato. Foram 579 prisões e apreensões no estado no período analisado, o equivalente a uma captura para cada 323 ocorrências.
Nos furtos e tentativas de furto, foram registrados 10.244 flagrantes, em uma proporção de uma prisão para cada 23 casos.
Tráfico concentra número de prisões
O ranking das prisões apresenta uma realidade diferente daquela observada nos registros de ocorrência. Tráfico de drogas e associação para o tráfico foram responsáveis por 15.934 prisões e apreensões nos 15 meses analisados, o equivalente a 26% de todas as detenções.
Entre os adultos presos por esses crimes, a cidade do Rio de Janeiro liderou, com 1.950 casos. Na sequência aparecem Nova Friburgo, com 630; Petrópolis, com 597; Macaé, com 513; e Campos dos Goytacazes, com 493.
Entre adolescentes apreendidos por tráfico ou associação para o tráfico, Nova Friburgo teve o maior número, com 227 casos. Depois aparecem Campos dos Goytacazes, com 190; Teresópolis, com 186; Petrópolis, com 181; e Rio de Janeiro, com 178.
Entre os crimes de furto, apenas o praticado contra estabelecimentos comerciais aparece entre os cinco tipos com maior número de prisões e apreensões. Foram 3.656 casos no estado durante o período.
Perfil dos detidos
A análise dos microdados do ISP também mostra características do perfil das pessoas presas ou apreendidas.
Nove em cada dez detidos são homens. Entre os adultos, 28% tinham entre 18 e 21 anos.
A escolaridade também aparece como um dos aspectos levantados pelo levantamento: 38% dos adultos presos não haviam concluído o ensino fundamental. Entre os adolescentes apreendidos, o percentual de pessoas com ensino fundamental incompleto chega a 54%.
A capital concentrou 36% de todas as prisões e apreensões do estado, proporção semelhante à observada entre os menores de idade.
Estelionato chama atenção na capital
No município do Rio, a diferença entre registros e prisões também é expressiva. Entre janeiro de 2025 e março de 2026, foram registrados mais de 90 mil casos de estelionato, enquanto 261 pessoas foram presas pelo crime.
O Rio concentra aproximadamente 65% dos furtos, 63% dos roubos e 49% dos estelionatos registrados em todo o estado.
Nos furtos, a proporção na capital é de uma prisão para cada 27 ocorrências. A Barra da Tijuca apresenta um índice melhor, com aproximadamente uma prisão a cada 14 furtos registrados.
Entre os bairros, o Centro aparece entre os locais com maior número de registros dos principais crimes analisados. A Tijuca ocupa a segunda posição em quantidade de roubos, enquanto a Barra da Tijuca lidera nos registros de estelionato.
Turismo influencia ocorrências no Centro
O delegado Niandro Lima, titular da 5ª DP (Mem de Sá), relaciona parte dos roubos registrados na região central à grande circulação de turistas.
“Um diferencial que a Lapa tem é o fato de ser uma área muito turística. Tem a Catedral e a Escadaria Selarón. O turista se distrai e acaba sendo roubado.”
— Niandro Lima, delegado titular da 5ª DP
A concentração de pessoas e a circulação de visitantes também são apontadas como fatores que podem influenciar a distribuição das ocorrências.
Para o cientista social e pesquisador do LAV/UERJ Robson Rodrigues, as diferenças entre os municípios precisam ser consideradas no planejamento da segurança pública.
“Esse desequilíbrio acontece em virtude de um estado e de uma cidade completamente heterogêneos. Então, esses aspectos precisam ser analisados pelas autoridades de segurança, para planejar melhor sua atuação.”
— Robson Rodrigues, cientista social e pesquisador do LAV/UERJ
Polícias contestam uso isolado dos números
Em nota, a Polícia Civil afirmou que utiliza dados estatísticos e de inteligência para orientar o planejamento das ações. A corporação ressaltou que o número de prisões, isoladamente, não representa toda a atuação policial.
Segundo a Polícia Civil, a efetividade também envolve identificação de autoria, esclarecimento de crimes, desarticulação de organizações criminosas e recuperação de bens.
A Polícia Militar informou que registros feitos posteriormente em delegacias também integram as bases utilizadas pelas forças de segurança. Segundo a corporação, essas informações ajudam a identificar locais, horários, tipos de ocorrência e padrões de criminalidade.
Os dados analisados correspondem ao período de janeiro de 2025 a março de 2026, recorte mais recente disponível para a análise dos microdados do ISP.





