Saúde

SUS envia sangue raro de avião para atender paciente grave em MG

Parceria entre o Ministério da Saúde, a Anac e companhias aéreas permite transportar bolsas de sangue raro na cabine de voos comerciais, reduzindo o tempo de entrega entre estados.

O Sistema Único de Saúde (SUS) realizou o segundo transporte de uma bolsa de sangue raro na cabine de uma aeronave comercial. O material foi coletado no Ceará na quinta-feira (9) e chegou a Juiz de Fora, em Minas Gerais, na sexta-feira (10), para atender um paciente em estado grave que precisava de transfusão.

A operação faz parte de uma parceria entre o Ministério da Saúde, a Agência Nacional de Aviação Civil (Anac) e companhias aéreas brasileiras. A medida busca acelerar a entrega de bolsas compatíveis, que antes eram transportadas como carga e estavam sujeitas a prazos mais longos e restrições.

Com a atualização do acordo, o transporte também poderá ocorrer à noite, nos fins de semana e feriados, ampliando as possibilidades de atendimento emergencial em diferentes regiões do país.

Paciente precisava de sangue compatível

O paciente está internado em Minas Gerais após passar por um transplante renal. Durante os exames pré-transfusionais, foi identificado o anticorpo anti-Jsb, condição que dificultou a localização de sangue compatível.

Diante da situação, a rede de hemoterapia acionou o Cadastro Nacional de Sangue Raro (CNSR), que identificou um doador no Ceará. Ele compareceu ao hemocentro, onde a bolsa foi coletada e liberada no mesmo dia.

Por causa da gravidade do quadro clínico, o material foi preparado em embalagem específica, com controle rigoroso de temperatura, para seguir gratuitamente na cabine de um voo comercial. Outros doadores também estão sendo convocados para ajudar a atender às necessidades de transfusão do paciente.

Segundo Luciana Maria de Barros Carlos, coordenadora-geral de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde, a integração entre as instituições deve facilitar o atendimento em todo o território nacional.

“O transporte de sangue raro envolve situações clínicas que exigem articulação e colaboração entre diferentes instituições. A inclusão desse serviço na parceria entre o Ministério da Saúde, por meio do Sistema Nacional de Transplantes (SNT), a Anac e as companhias aéreas permitirá agilizar o atendimento a pacientes em qualquer estado do país e viabilizar tratamentos que, de outra forma, poderiam não acontecer”, afirmou.

Primeiro transporte ocorreu em setembro

A primeira operação desse tipo no Brasil foi realizada em 12 de setembro, quando uma bolsa de sangue raro foi transportada gratuitamente de São Paulo para o Piauí.

O material era destinado a um paciente com doença renal crônica em estado grave, que precisava de transfusão. Após exames identificarem uma combinação sanguínea extremamente rara, a rede de hemoterapia acionou o Cadastro Nacional de Sangue Raro e localizou um doador compatível em São Paulo.

A transfusão foi realizada com sucesso. De acordo com a equipe responsável pelo atendimento, o paciente apresentou bom estado de saúde após o procedimento.

O que torna um tipo sanguíneo raro

Um perfil sanguíneo é considerado raro quando aparece em menos de uma a cada mil pessoas testadas. Além dos sistemas ABO e Rh, existem outros antígenos na superfície das hemácias que podem influenciar a compatibilidade entre doadores e receptores.

Quando essas características são incomuns, encontrar sangue adequado pode exigir buscas em diferentes estados. Exames de fenotipagem e genotipagem ajudam a identificar particularidades do sangue e a localizar unidades compatíveis.

O atendimento depende da atuação conjunta dos serviços de hemoterapia, responsáveis por identificar doadores, armazenar as bolsas e organizar o transporte.

Entre as medidas previstas para ampliar essa capacidade estão a identificação de mais pessoas com perfis sanguíneos raros, a estruturação de laboratórios de referência e a implantação do congelamento de bolsas, técnica que poderá permitir o armazenamento por até dez anos.

O Brasil também prevê aderir, em outubro, a uma rede mundial de sangue raro. A iniciativa permitirá solicitar bolsas a outros países quando necessário e contribuir para o atendimento de pacientes no exterior.

Cadastro já ajudou mais de 300 pacientes

Criado pelo Ministério da Saúde em 2013, o Cadastro Nacional de Sangue Raro reúne atualmente 2.032 doadores e já contribuiu para o atendimento de mais de 300 pacientes.

Quando um hemocentro não encontra sangue compatível no próprio estado, pode recorrer ao cadastro, coordenado pela Coordenação-Geral de Sangue e Hemoderivados do Ministério da Saúde.

A equipe identifica possíveis doadores em outras unidades da Federação, articula a convocação para coleta e auxilia na organização do transporte para que o material chegue ao paciente em tempo adequado.

Acordo também atende ao transporte de órgãos

O acordo de cooperação técnica entre o Ministério da Saúde e as companhias aéreas já prevê o transporte gratuito de órgãos para transplantes.

Em 2025, a Central Nacional de Transplantes intermediou 2.016 transportes: 1.716 em voos comerciais e 300 em aeronaves da Força Aérea Brasileira (FAB).

Com a inclusão das bolsas de sangue raro, a estrutura passa a apoiar também o deslocamento de material compatível entre estados, inclusive em situações nas quais doadores e pacientes estão separados por milhares de quilômetros.

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