Bando de Rabicó movimentou R$ 453 milhões em quatro anos, diz investigação
Quebras de sigilos apontam esquema de lavagem de dinheiro ligado ao tráfico no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo; 55 pessoas tiveram prisão decretada em maio.
Uma investigação da Polícia Civil aponta que o grupo comandado por Antônio Ilário Ferreira, conhecido como Rabicó ou Coroa, movimentou R$ 453 milhões entre 2020 e 2024. Segundo as apurações, o dinheiro estaria relacionado a atividades criminosas e teria sido movimentado por meio de empresas de fachada, operadores financeiros e um ferro-velho.
Rabicó, de 62 anos, é apontado pela investigação como uma das lideranças do Comando Vermelho e como responsável pelo tráfico de drogas no Complexo do Salgueiro, em São Gonçalo.
As informações foram obtidas a partir de quebras de sigilos telemático, financeiro e fiscal autorizadas pela Justiça, além de relatórios do Conselho de Controle de Atividades Financeiras (Coaf) e análises bancárias.
Operador financeiro teria movimentado R$ 73 milhões
Entre os investigados está Alex Sandro Ferreira de Araújo, conhecido como Tek, de 44 anos. Apontado como compadre de Rabicó e principal operador financeiro do grupo, ele teria movimentado mais de R$ 73 milhões entre agosto de 2020 e setembro de 2024.
Segundo a investigação, Tek declarou ter renda mensal de R$ 984,84 como pescador. Apesar disso, teria realizado 136 depósitos fracionados em diferentes cidades do estado do Rio de Janeiro e movimentado outros R$ 16 milhões por meio de transferências.
A Polícia Civil também aponta que ele controlava duas empresas de reciclagem consideradas de fachada e recebia ordens de Rabicó para realizar pagamentos.
De acordo com o delegado Moysés Santana, da Delegacia de Repressão a Entorpecentes (DRE-Capital), os recursos investigados teriam origem no tráfico e na comercialização ilegal de materiais recicláveis.
“A origem do dinheiro movimentado era proveniente do tráfico e também da comercialização ilícita de materiais recicláveis. Rabicó, por intermédio de Tek, constituiu uma empresa de reciclagem, mas esta nunca adquiriu material com emissão de notas fiscais. Rabicó mesclava o dinheiro do tráfico com o de um ferro-velho. Tek, além de gerir esse ferro-velho, era o operador financeiro de Rabicó, pagando, por conta própria ou da empresa, as despesas do compadre, além de financiar o crime com a compra de armas e drogas.”
— Moysés Santana, delegado da DRE-Capital
Investigação aponta compra de carros de luxo
Os investigadores também identificaram a aquisição de veículos em benefício de pessoas ligadas ao grupo. Um homem apontado como laranja teria comprado dois carros de luxo.
Um deles seria uma Fiat Toro, adquirida a prazo e utilizada por uma mulher de 26 anos apontada como companheira de Rabicó e uma das pessoas beneficiadas pelo esquema.
Ela foi presa preventivamente em maio, mas a defesa recorreu e conseguiu a conversão da prisão para o regime domiciliar, no qual permanece.
Outra pessoa investigada seria responsável por fazer a ligação entre o esquema financeiro e as ações armadas da quadrilha. Segundo a polícia, o homem possui seis registros relacionados a tráfico de drogas, roubo e porte ilegal de arma de fogo.
Ele teria recebido R$ 105.296 em 14 transações via Pix realizadas por uma mulher investigada como operadora de uma conta de passagem.
A mulher teria declarado trabalhar como cabeleireira e receber R$ 1.500 por mês, além de ser beneficiária de programas assistenciais. Ainda segundo a investigação, ela movimentou R$ 2.992.502,97 entre janeiro e julho de 2024.
Rabicó tem seis mandados de prisão
Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ) indicam que Rabicó possui seis mandados de prisão expedidos pelo Tribunal de Justiça do Rio de Janeiro (TJRJ).
O mais recente foi expedido em 11 de maio, durante uma operação da DRE-Capital que teve como alvo o chefe do grupo e outros integrantes. Ao todo, 55 pessoas tiveram a prisão decretada pela 1ª Vara Especializada Criminal contra o Crime Organizado. Nove obtiveram prisão domiciliar e pelo menos 18 permanecem foragidas.
Rabicó chegou a ser preso em 2008, em Pernambuco. Ele foi condenado a 27 anos de prisão e cumpriu 11 anos em uma penitenciária federal de Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. Em 2019, deixou a prisão após decisões judiciais.
Em janeiro de 2026, a Polícia Civil também informou ter indiciado Rabicó e outros sete integrantes da cúpula do Comando Vermelho por suspeita de envolvimento em uma onda de roubos de veículos registrada no estado entre os dias 2 e 30 de janeiro de 2025.
Os advogados das pessoas citadas na investigação não foram localizados para comentar as acusações.





