Missionária presa em MT é investigada por ligação com facção no Rio
Segundo a Polícia Civil, Rhavenna Barcelos mantinha relacionamento com um dos líderes do CV e recebia informações sobre esconderijo e operações no Complexo do Alemão
A missionária Rhavenna Barcelos de Almeida, presa em Mato Grosso por suspeita de envolvimento com o Comando Vermelho (CV), é investigada por manter relações com integrantes da cúpula da facção e ter participado de um esquema que, segundo a Polícia Civil, envolvia repasse de informações, lavagem de dinheiro e uso de um projeto religioso em presídios.
De acordo com a investigação, Rhavenna mantinha um relacionamento com Jonas Souza Gonçalves Júnior, conhecido como Batman, apontado pela polícia como um dos chefes do CV em Mato Grosso. Após fugir de uma penitenciária de Cuiabá, ele teria se escondido no Rio de Janeiro e compartilhado com a missionária informações sobre sua localização e sobre operações policiais no Complexo do Alemão, na Zona Norte.
A investigação também envolve os pais de Rhavenna, os pastores Orminda e Nivaldo de Almeida. Segundo os investigadores, os três utilizavam um projeto de assistência religiosa em unidades prisionais para transmitir mensagens, movimentar dinheiro e dar suporte a integrantes da organização criminosa.
Traficante fugiu para o Rio
Jonas Souza Gonçalves Júnior cumpria pena na Penitenciária Central de Cuiabá, onde a família atuava por meio do projeto religioso. Condenado a 49 anos de prisão, ele passou ao regime semiaberto em setembro de 2024, com uso de tornozeleira eletrônica.
Três dias depois, rompeu o equipamento e fugiu para o Rio de Janeiro. Batman passou a integrar a lista dos criminosos mais procurados do país.
Mensagens obtidas pela polícia com autorização judicial indicam que ele enviava a Rhavenna informações sobre seu paradeiro no Complexo do Alemão. Segundo a investigação, os dois se encontravam com frequência no Rio.
Em junho de 2025, uma operação policial no conjunto de favelas foi comentada pelo casal. Em uma das mensagens, Batman informou que havia uma operação no local. Rhavenna respondeu recomendando cuidado. Durante a ação, o traficante informou que havia deixado a região e que estava em outra favela.
Registros reunidos pelos investigadores também mostram Batman usando joias e acompanhado de homens armados. Segundo a polícia, ele seria proprietário de um Porsche conversível avaliado em cerca de R$ 600 mil. Rhavenna aparece em imagens dentro do veículo.
Encontros com traficantes
A investigação identificou ainda possíveis relações entre outras integrantes do grupo religioso e criminosos ligados ao CV.
Um vídeo de um churrasco na Rocinha, na Zona Sul do Rio, mostra Batman próximo a uma churrasqueira enquanto mulheres cantam um louvor. Um fuzil aparece nas imagens.
Fotografias reunidas no inquérito também mostram Rhavenna e os pais ao lado de homens armados e com armas.
“O que mais surpreendeu as equipes de investigação foi a ligação tão próxima com membros do alto escalão da facção criminosa que atua aqui no Mato Grosso” — delegado Victor Hugo Caetano, da Delegacia de Repressão ao Crime Organizado.
O governo do Rio informou ao Fantástico que as forças de segurança atuam de forma permanente para identificar, localizar e prender criminosos de outros estados que estejam atuando ou escondidos no território fluminense.
Projeto religioso em presídios
Rhavenna e os pais integravam o projeto “Equipe Evangelismo Resgatando Vidas”, autorizado pelo governo de Mato Grosso a prestar assistência religiosa em unidades prisionais.
A família passou a ser investigada após a polícia receber uma denúncia sobre uma possível ligação com uma organização criminosa.
Segundo o inquérito, o trabalho religioso teria sido utilizado como forma de acesso aos presídios para levar celulares, transmitir mensagens e movimentar recursos da facção. A Penitenciária Central de Cuiabá, onde o grupo atuava, abriga mais de três mil presos, entre eles integrantes da liderança do CV.
“Eles levavam recados, lavavam dinheiro, emprestavam as contas bancárias para que fosse feita a ocultação e a dissimulação de valores e tudo isso era revertido em prol da facção criminosa” — Victor Hugo Caetano.
Em um dos áudios analisados pelos investigadores, Rhavenna fala sobre levar dinheiro e retirar uma quantia de uma residência. No celular dela, também foram encontrados vídeos de criminosos efetuando disparos com armas de fogo.
Em uma das gravações, Batman aparece acompanhando, por videochamada, o teste de um fuzil.
Outro registro mostra Nivaldo exibindo uma pistola para a filha e fazendo um gesto que, segundo a polícia, seria associado à facção. Em outra conversa, Orminda afirma que iria a um sítio buscar uma arma para vender.
Rhavenna e os pais foram indiciados por organização criminosa e lavagem de dinheiro. Outras mulheres ligadas ao grupo foram indiciadas por falso testemunho, sob suspeita de terem mentido durante depoimentos sobre relações mantidas com traficantes.
Outro integrante do CV é investigado
A investigação também aponta uma relação entre Rhavenna e Renildo Silva Rios, preso há mais de 20 anos por homicídio, tráfico de drogas e organização criminosa. Ele é apontado como um dos fundadores do Comando Vermelho em Mato Grosso.
Segundo o delegado Victor Hugo Caetano, Rhavenna e os pais também teriam lavado dinheiro para Renildo.
Em mensagens enviadas a uma amiga, a missionária teria chamado Renildo de “conselheiro final” da facção e afirmado que ele tinha dinheiro.
O material apresentado pelo Fantástico aponta ainda que Rhavenna teria recebido presentes do preso, entre eles uma pulseira de ouro e um carro. Em uma ocasião, Renildo participou por videochamada de uma surpresa preparada para ela, que incluía uma viagem ao Nordeste e uma caixa em formato de coração com notas de R$ 100.
Na sexta-feira, o Ministério Público denunciou Rhavenna, Orminda e Renildo pelos crimes de organização criminosa e lavagem de dinheiro.
Nivaldo morreu na semana passada em decorrência de um câncer.
A defesa de Rhavenna negou as acusações e afirmou que os fatos serão esclarecidos durante o processo. A defesa de Orminda também negou qualquer participação dela em organização criminosa. Durante o interrogatório policial, Rhavenna exerceu o direito de permanecer em silêncio.
A Justiça de Mato Grosso proibiu a família e outras quatro pessoas de participar de atividades de assistência religiosa em presídios. Os demais grupos cadastrados continuam autorizados a realizar visitas.
A Secretaria de Justiça informou que reforçou a fiscalização para impedir a entrada e o uso de celulares na Penitenciária Central de Cuiabá.





