PF investiga Canella por acordo com o Comando Vermelho no Rio
Áudios analisados pela Polícia Federal indicam que o deputado estadual eleito Márcio Canella teria intermediado negociações para retirar barricadas em áreas dominadas pelo tráfico, com a promessa de reduzir operações policiais após obras públicas.
O deputado estadual eleito Márcio Canella (União Brasil), preso nesta quinta-feira (15), é investigado pela Polícia Federal por suspeita de intermediar acordos entre integrantes do Comando Vermelho (CV) e agentes públicos no Rio de Janeiro. Segundo os investigadores, as negociações envolveriam a retirada de barricadas em áreas controladas pela facção em troca de uma redução das incursões da Polícia Militar após a realização de obras de urbanização.
De acordo com a PF, áudios obtidos durante as apurações apontam que o capitão da Polícia Militar Alessander Ribeiro Estrella Rosa atuaria como intermediário entre a administração municipal comandada por Canella, quando ele era prefeito de Belford Roxo, na Baixada Fluminense, e lideranças criminosas.
Entre os nomes citados nas investigações estão Edgar Alves de Andrade, conhecido como Doca, e José Severino da Silva Júnior, chamado de Soró.
Como funcionaria o suposto acordo
Segundo os investigadores, o entendimento previa que traficantes retirassem barricadas para permitir a execução de obras públicas. A prefeitura poderia divulgar as intervenções como realizações da administração municipal.
Em contrapartida, conforme a suspeita investigada pela PF, as forças de segurança reduziriam as operações nas regiões durante os trabalhos. Após a conclusão das obras, os criminosos retomariam o controle dos territórios sem novos confrontos com os policiais.
A investigação também aponta uma possível aproximação política de Canella com grupos milicianos. Segundo a PF, o então prefeito teria nomeado para cargos na Prefeitura de Belford Roxo ex-vereadores investigados por supostas ligações com milícias.
Outro ponto apurado é a relação com Juracy Alves Prudêncio, conhecido como Jura, apontado como uma das principais lideranças do grupo miliciano Somos Comunidade. Os investigadores também destacam a nomeação de Giane Prudêncio, mulher de Jura, para um cargo comissionado de assessora no gabinete parlamentar de Canella na Assembleia Legislativa do Rio (Alerj).
Operação Unha e Carne prendeu seis pessoas
A prisão de Canella ocorreu durante a oitava fase da Operação Unha e Carne, deflagrada pela Polícia Federal nesta quinta-feira (15). A ação investiga uma organização suspeita de utilizar uma rede de postos de combustíveis da Região Metropolitana do Rio para lavar dinheiro.
Ao todo, seis pessoas foram presas, entre elas Canella, o delegado Marcus Amim, ex-secretário de Polícia Civil, e outros quatro policiais civis. De acordo com a investigação, o grupo seria dividido em três núcleos: político e institucional, financeiro e de lavagem de dinheiro.
A PF aponta Canella como integrante do núcleo político e institucional. Ele é suspeito de atuar como articulador entre os responsáveis pela movimentação financeira, agentes públicos e estruturas políticas. Os investigadores também apuram se o ex-prefeito teria recebido valores provenientes das atividades ilícitas e indicado pessoas para cargos estratégicos na administração pública.
Marcus Amim, segundo a PF, teria exercido uma função de proteção institucional e policial ao grupo, além de recebido recursos por meio de empresas vinculadas a familiares.
Investigação aponta estrutura financeira e lavagem de dinheiro
O inspetor da Polícia Civil Pablo Jukiá Felix Ferreira, conhecido como Pablo Russo, é apontado como um dos principais operadores financeiros da organização. Conforme a investigação, ele controlaria uma rede de postos de combustíveis registrada formalmente em nome de terceiros, utilizada para ocultar patrimônio, movimentar recursos ilícitos e lavar dinheiro.
As apurações também indicam que Pablo mantinha contato com agentes públicos e particulares ligados aos interesses do grupo. Entre os contatos investigados está um escrivão da própria Polícia Federal, suspeito de ter fornecido acesso privilegiado a informações sobre investigações em andamento. O agente teve o afastamento solicitado ou determinado no âmbito do caso, conforme os dados divulgados sobre a operação.
José Carlos Alves de Souza Júnior também é apontado como integrante do núcleo financeiro. Segundo a PF, ele seria responsável pelo controle da arrecadação e pela distribuição de valores entre os envolvidos. Documentos apreendidos durante as apurações indicariam repasses de dinheiro a diferentes integrantes da organização.
Os irmãos Giovanni Gaspar Fernandes e Christiano Gaspar Fernandes são investigados por suspeita de participação na lavagem de capitais e ocultação de patrimônio. De acordo com a PF, eles seriam sócios ocultos de empresas relacionadas ao grupo e beneficiários de transferências financeiras provenientes das atividades investigadas.
Christiano ocupa o cargo de secretário municipal de Ordem Urbana de Belford Roxo.
Defesas ainda não haviam se manifestado
Até a publicação das informações que embasam esta matéria, a defesa de Márcio Canella não havia se pronunciado sobre a prisão e as acusações. Também não havia sido possível localizar as defesas dos demais suspeitos citados. A Prefeitura de Belford Roxo foi procurada para comentar a prisão de Christiano Gaspar Fernandes, mas não havia respondido até aquele momento.
As suspeitas fazem parte de uma investigação em andamento e deverão ser apuradas pelas autoridades competentes.





