Petrópolis

Ônibus clandestino tomba na BR-040 e deixa dez mortos

Acidente em Petrópolis matou nove mulheres e uma criança; sobreviventes relatam que veículo seguia em alta velocidade

Um ônibus com 56 passageiros tombou por volta das 4h30 deste domingo, no km 91 da BR-040, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio. Dez pessoas morreram, sendo nove mulheres e uma menina de 7 anos. Ao menos 23 feridos, entre eles o motorista, foram encaminhados para três hospitais.

O grupo havia saído de Belo Horizonte com destino ao Rio de Janeiro para passar o domingo em Copacabana. A viagem era organizada no formato bate-volta, com retorno previsto para o fim da tarde.

Segundo relatos de passageiros, o ônibus seguia em alta velocidade. A Agência Nacional de Transportes Terrestres (ANTT) informou que o veículo não tinha autorização para realizar o transporte interestadual de passageiros e classificou a viagem como clandestina.

Até a noite de domingo, oito vítimas haviam sido identificadas: Jhennifer Ferreira Carvalho, de 33 anos; Lavinia Eduarda Souza Dias, de 7; Luciana Ferreira Cavalho, de 53; Ketelyn Polyane Alves de Oliveira, de 19; Keyla Perucci da Silva, de 35; Priscilla de Souza Braz, de 33; Natália Fimiano de Barros, de 34; e Dayanna de Lima Viana, de 36.

Ketelyn estava grávida de quatro meses. O companheiro dela, Gabriel Bernardes, pai do bebê, sobreviveu ao acidente e relatou os momentos que antecederam o tombamento.

“Eu estava no segundo andar e ele estava em alta velocidade, passando pelas curvas. Fiquei com medo e algumas passageiras pediram para parar o ônibus, mas aí ele perdeu o controle do veículo.”

A 105ª DP (Petrópolis) investiga as circunstâncias do acidente. Nove corpos foram encaminhados ao Instituto Médico-Legal (IML) de Petrópolis para exames periciais. A décima vítima, ainda sem identificação, foi encaminhada ao IML de Nova Iguaçu.

Ônibus não tinha autorização para viagem interestadual

De acordo com a ANTT, o ônibus, de placa AKY-3454, está registrado em nome da Dinna Elles Turismo, com comunicação de venda para a PIT Tur Transportes Ltda. Nenhuma das duas empresas é habilitada pela agência para realizar o transporte.

O coletivo também tinha um adesivo da ANTT em nome da Samara, que, segundo o órgão, também estaria inapta. A agência informou ainda que não encontrou empresa habilitada com o nome Estrela Guia Turismo, apontada como responsável pela viagem e pela comercialização dos pacotes.

Na segunda quinzena de maio, a Estrela Guia havia oferecido três passeios semelhantes para Copacabana, cobrando R$ 140 por pessoa. As viagens tinham saída e retorno no mesmo dia entre Belo Horizonte e o Rio, cidades separadas por cerca de 440 quilômetros.

Para a excursão deste fim de semana, o ônibus saiu da Praça da Cemig, em Contagem, passou pela Avenida Afonso Pena, no Centro de Belo Horizonte, e fez uma última parada no Shopping Estação, em Venda Nova, na Zona Norte da capital mineira.

Passageiros também relataram problemas no veículo antes do acidente. Entre as queixas estavam cintos de segurança que não funcionavam e a manutenção da alta velocidade durante o trajeto pela estrada.

“Quando chegamos em Petrópolis, as pessoas começaram a gritar. Estava dormindo, abracei meu noivo e disse que iríamos morrer. O ônibus começou a balançar muito. Na descida, capotou, bateu em uma árvore e ela entrou dentro do ônibus”, contou uma passageira ao g1.

O acidente ocorreu em um trecho da rodovia que estava em obras, com interdição no lado direito da pista. Uma operação de resgate foi mobilizada após o tombamento, envolvendo equipes do Samu de Petrópolis e da Baixada Fluminense, do Corpo de Bombeiros, da Polícia Rodoviária Federal (PRF) e da concessionária Elovias, responsável pela administração da rodovia.

A Estrela Guia Turismo informou, em nota, que lamenta o acidente, prestou solidariedade às vítimas e afirmou que está dando suporte e colaborando com as investigações. Sobre a informação da ANTT de que a empresa não tinha autorização para a viagem, o advogado Aroldo Leão Braz afirmou que as manifestações serão feitas apenas pelas vias administrativa ou judicial.

Sobreviventes relatam momentos de pânico

Leticia Santos, de 25 anos, estava entre os passageiros que viajavam de Belo Horizonte para comemorar um aniversário em Copacabana. Ela estava acompanhada de sete amigas.

“Eu estava dormindo e acordei com o ônibus balançando muito. Não demorou para ver ele batendo em uma mureta e saindo da pista”, relatou.

Leticia foi encaminhada para o Hospital Adão Pereira Nunes, em Duque de Caxias, e recebeu alta com escoriações no rosto. Na saída, foi recebida pela mãe, Lení, que havia sido avisada por volta das 5h pelo marido de uma das passageiras.

“Não consigo descrever o aperto no peito. Minha filha nasceu outra vez.”

Após o acidente, Leticia afirmou que a experiência mudou sua percepção sobre a própria vida.

“Volto para casa diferente. É como se o filme da minha vida tivesse passado na minha cabeça, não sei. Estou me sentindo outra.”

Moradores de comunidade de Belo Horizonte estão entre passageiros

Outro grupo numeroso que estava na excursão era formado por moradores da Vila Acaba Mundo, na Região Centro-Sul de Belo Horizonte. Mais de dez passageiros eram da comunidade, que tem cerca de 4 mil habitantes.

Após a notícia do acidente, parentes, amigos e vizinhos passaram a buscar informações sobre os moradores que estavam no ônibus. Segundo Paola Tassini, vice-presidente da associação de moradores, dois integrantes da comunidade viajaram para o Rio.

“Todo mundo é primo de alguém, filho, primo, prima”, disse Paola.

A comunidade tinha uma ação prevista para arrecadar alimentos para doação, mas a programação foi substituída pela mobilização em torno dos moradores envolvidos na tragédia.

“Na comunidade, todo mundo se conhece, todo mundo está atordoado”, lamentou.

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