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Alunos da UFRJ dão versões opostas sobre briga no IFCS

Estudante de Direito acusa colega de injúria racial após questionar camisa com simbologia nazista; aluno de História nega ofensas e diz ter sido espancado

Uma briga entre estudantes no Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) terminou em agressões físicas e acusações de injúria racial, após um aluno questionar outro sobre o uso de uma camisa com uma simbologia associada ao nazismo. O episódio ocorreu na terça-feira e está sendo investigado pela Polícia Civil e por uma comissão de sindicância da universidade.

Os dois principais envolvidos apresentam versões diferentes sobre o que provocou a confusão e sobre as agressões ocorridas dentro e fora do prédio, localizado no Centro do Rio.

O estudante de Direito Deivid Lima afirma que foi agredido e vítima de injúria racial ao tentar conduzir o colega à delegacia. Segundo ele, a abordagem ocorreu depois que tomou conhecimento de que o aluno de História Diego Costa Araújo estaria assistindo a uma aula com uma camisa da banda Death in June, que trazia uma caveira associada à SS nazista.

Deivid afirma que foi até a sala para questionar o estudante e disse que pretendia levá-lo à delegacia para esclarecer a situação.

“Eu falei: “se ele estiver, de fato, usando essa roupa nazista, ele vai ter que esclarecer isso em uma delegacia. Não precisa de tratamento hostil, podemos chegar tranquilamente, falar com ele e direcionar para os órgãos competentes”. Fui até a sala, pedi perdão por interromper e falei sobre a situação. Disse que queria esclarecer os fatos porque isso me afeta diretamente como pessoa preta” — Deivid Lima

Segundo o estudante de Direito, Diego inicialmente concordou em acompanhá-lo até a secretaria enquanto aguardavam a polícia. A situação teria mudado na escadaria do prédio.

“Ele deve ter notado que não era uma boa ideia ir para a delegacia. Ele me deu uma cotovelada muito rapidamente, pegou meu cabelo e disse: “macaco, vou te matar”. Ao chegar ao final da escada, bati a cabeça na parede, ele se inclinou e puxou o meu cabelo. Foi assustador, porque ele rosnava e tentava me morder” — Deivid Lima

O estudante registrou ocorrência por injúria racial e lesão corporal e realizou exame de corpo de delito.

Aluno de História nega apologia ao nazismo

Diego Costa Araújo apresentou uma versão diferente sobre a origem do conflito. Em entrevista ao jornalista Pedro Doria, no YouTube, ele afirmou que foi retirado à força da sala por outros estudantes e negou ser nazista ou manter vínculos com grupos de extrema-direita.

“Não sou nazista. Sou um estudioso do nazismo no Brasil e na Europa. Meu interesse é puramente acadêmico. Eu não possuo qualquer histórico de participar, como estão me atacando, de grupos extremistas. Não faço parte de nada disso e nunca tive contato com esses grupos” — Diego Costa Araújo

Segundo Diego, a roupa utilizada fazia referência à subcultura punk e tinha caráter crítico em relação a símbolos fascistas. Ele afirmou que a banda Death in June satiriza símbolos nazistas e mencionou uma imagem publicada no site do grupo com uma mensagem contrária ao nazismo.

Sobre a caveira presente na camisa, o estudante disse que o símbolo teria origem anterior ao nazismo e também seria utilizado em referências históricas ligadas a piratas e tropas prussianas.

Diego afirmou ainda que usava um broche com uma suástica acompanhada de um símbolo de proibição como forma de demonstrar oposição ao nazismo.

Agressões também são contestadas

As versões também divergem sobre o que ocorreu durante a briga. Deivid afirma que Diego teria feito ofensas racistas e misóginas contra pessoas que estavam no local, o que teria aumentado a tensão.

“Quem era negro, ele chamava de macaco. Quem era mulher, ele dizia que era puta. Ele começou a proferir essas ofensas provavelmente para que as pessoas quisessem bater nele. Tanto é que, quando ele sai da faculdade, dá um tchauzinho, e isso deixa o pessoal mais estressado. Aí que foram atrás dele” — Deivid Lima

Diego nega ter feito os xingamentos e afirma que foi atacado por um grupo de estudantes. Ele prestou depoimento na 6ª DP (Cidade Nova) e também realizou exame de corpo de delito no Instituto Médico Legal (IML).

“Há um momento na escada em que estou sendo espancado por 10, 15, 20 pessoas. Estou sofrendo uma tentativa de homicídio ali. Enquanto eu estava no chão e eles me chutando, falavam “mata, mata, espanca ele”. Quando me colocam para fora do prédio, me empurram com força, eu caio na grade e a mesma multidão me espanca. Eu fui massacrado” — Diego Costa Araújo

O estudante de História afirmou ter procurado uma UPA após o episódio e disse estar com diversos cortes. Ele também relatou que passou a receber ameaças depois que seus dados pessoais foram divulgados na internet.

UFRJ abriu sindicância

A Polícia Civil instaurou um inquérito para investigar o caso. Paralelamente, a reitoria da UFRJ criou uma comissão de sindicância para apurar tanto a possível apologia ao nazismo quanto as agressões físicas.

O reitor Roberto Medronho afirmou que a universidade não aceita manifestações nazistas, antissemitas ou qualquer forma de discriminação, mas também condenou o uso de violência.

“A UFRJ não aceita o nazismo, o antissemitismo, nem qualquer forma de discriminação. Mas também repudia de forma clara a violência. Diante de um assunto como esse, tipificado como crime, que é a apologia à simbologia nazista, o que deve ser feito é chamar a polícia, as autoridades policiais, para que elas intervenham. Não há justificativa para o uso da violência” — Roberto Medronho

Segundo o reitor, todos os envolvidos serão chamados pela comissão e terão direito à ampla defesa. Caso sejam constatadas irregularidades, poderão ser aplicadas medidas previstas no código disciplinar da universidade, que incluem repreensão, suspensão e expulsão.

Polícia Civil e universidade ainda apuram as circunstâncias do episódio e deverão analisar as versões apresentadas pelos envolvidos e os demais elementos reunidos durante as investigações.

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