Operação mira esquema de venda de gás ligado ao Comando Vermelho
A Polícia Civil e o Ministério Público do Estado do Rio de Janeiro (MPRJ) realizaram, nesta quarta-feira (28), a Operação Dominus, contra um esquema investigado por usar a venda de gás de cozinha para financiar atividades do Comando Vermelho. A apuração aponta que o grupo impunha regras comerciais em comunidades dominadas pela facção e extorquia comerciantes sob ameaça.
A ação é conduzida pela Delegacia de Defesa dos Serviços Delegados (DDSD), em conjunto com o Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (GAECO/MPRJ). Os agentes buscam cumprir mandados de prisão e 44 medidas de busca e apreensão, além de bloquear mais de R$ 350 milhões em ativos financeiros e sequestrar bens ligados aos investigados.
Até o momento, quatro pessoas foram capturadas, duas delas já estavam presas. A operação conta com apoio de outras unidades do Departamento-Geral de Polícia Especializada (DGPE) e da Coordenadoria de Recursos Especiais (CORE).
Os mandados são cumpridos em diferentes municípios do estado, com concentração em São Gonçalo. As equipes atuam em localidades como Jardim Catarina, Trindade, Santa Luzia, Guaxindiba, Neves, Boaçu e Alcântara.
A operação também abrange endereços em Itaboraí, Duque de Caxias e Niterói, além dos bairros do Recreio dos Bandeirantes e da Taquara, na capital fluminense. Entre os alvos estão residências e estabelecimentos comerciais, especialmente distribuidoras e revendedoras de gás apontadas pela investigação como integrantes ou vinculadas à estrutura investigada.
Segundo a apuração, o grupo usava a intimidação associada ao domínio territorial do tráfico para interferir na comercialização de gás de cozinha. Comerciantes seriam obrigados a comprar produtos de empresas ligadas à organização ou a pagar valores periódicos para manter seus estabelecimentos em funcionamento.
As cobranças eram chamadas de “metas do gás” e, conforme os investigadores, funcionavam como um mecanismo recorrente de arrecadação de dinheiro para sustentar a estrutura criminosa. A prática também teria sido usada para restringir a concorrência e subordinar a venda do produto aos interesses do grupo.
O inquérito foi instaurado em 2024 para investigar suspeitas de organização criminosa e extorsão por meio da exploração econômica do comércio de gás liquefeito de petróleo (GLP).
De acordo com a Polícia Civil, a investigação identificou uma estrutura organizada, com integrantes responsáveis por diferentes etapas do esquema. Entre as funções mapeadas estão a coordenação das operações comerciais, a logística de distribuição, a cobrança de valores e a articulação com pessoas ligadas ao controle territorial exercido pela facção.
Para reunir provas, os investigadores ouviram testemunhas, realizaram diligências de campo e cruzaram dados cadastrais. Também analisaram registros de estações rádio-base, interceptações telefônicas e informações telemáticas obtidas mediante autorização judicial.
A análise de arquivos armazenados em dispositivos usados por um dos principais alvos teria permitido recuperar comunicações e identificar contatos entre operadores comerciais, arrecadadores e integrantes ligados ao tráfico de drogas.
A apuração também aponta possíveis vínculos entre o principal investigado e lideranças do Comando Vermelho. Segundo os investigadores, ele teria mantido relações de proximidade com integrantes da cúpula da facção, prestando apoio a interesses pessoais e à movimentação de pessoas ligadas ao grupo.
Entre os pontos investigados está a suspeita de que o alvo tenha atuado na locação de imóveis para Edgard Alves de Andrade, conhecido como “Doca”, apontado pelas autoridades como uma das principais lideranças em liberdade do Comando Vermelho.
A investigação também apura uma possível contribuição do suspeito para a fuga de Doca do Complexo do Alemão durante a Operação Contenção, realizada em outubro de 2025. Além disso, os agentes identificaram indícios de proximidade com uma liderança do tráfico na comunidade da Muzema.
Outro eixo da apuração envolve a suspeita de ocultação de recursos por meio de empresas e pessoas que seriam usadas para dissimular os verdadeiros responsáveis pelos negócios. Conforme os investigadores, estruturas empresariais formalmente registradas em nome de terceiros, principalmente nos setores de distribuição de gás e construção civil, podem ter sido utilizadas para movimentar dinheiro e dificultar o rastreamento do patrimônio.
O cruzamento de informações financeiras, cadastrais e telemáticas apontou movimentações consideradas incompatíveis com a renda declarada de pessoas relacionadas ao esquema, além de vínculos entre empresas e interesses patrimoniais dos investigados.
Com o bloqueio de ativos e o sequestro de bens, a operação busca preservar recursos que possam estar relacionados às atividades investigadas e atingir a capacidade financeira do grupo. As suspeitas ainda são objeto de apuração.





