Indústria naval prevê mais de 80 mil empregos até o fim de 2026, mas cobra crédito
A indústria naval brasileira projeta superar 80 mil empregos diretos até o fim de 2026, impulsionada pela retomada de encomendas de navios e embarcações. O número, que já ultrapassou 70 mil trabalhadores em maio, se aproxima do recorde de 82 mil registrado em 2014, antes da crise que atingiu o setor.
A expansão é puxada principalmente por contratos da Petrobras e da Transpetro, incluindo o programa Mar Aberto, que prevê cerca de R$ 5,2 bilhões para a construção de navios e embarcações. A iniciativa contempla quatro navios da classe Handy, cinco gaseiros, quatro navios MR1 e 36 embarcações para navegação interior. Com os novos projetos, a frota própria da Transpetro deverá crescer de 26 para 42 navios até 2030.
Apesar da retomada, estaleiros e entidades do setor apontam acesso ao crédito, garantias e seguros como os principais gargalos. O Fundo da Marinha Mercante (FMM) tem recursos disponíveis, mas os bancos exigem garantias adicionais para operações de maior porte, reflexo da crise enfrentada pela indústria naval na década passada.
A dificuldade também aparece na contratação de seguros. Para viabilizar os quatro navios Handymax da Transpetro, mais de 20 seguradoras e resseguradoras foram consultadas. O risco acabou distribuído entre quatro empresas, em uma apólice de R$ 1,6 bilhão.
O crescimento do setor também recoloca em pauta a formação de mão de obra. No Rio Grande do Sul, o Estaleiro Rio Grande, da Ecovix, estima chegar a cerca de cinco mil trabalhadores no pico da construção de 13 navios. A empresa prevê investimentos em treinamento, enquanto representantes do setor defendem maior uso de automação, inteligência artificial e outras tecnologias para enfrentar a escassez de profissionais.
Estaleiros do Rio buscam voltar ao mercado
No Rio de Janeiro, os estaleiros Mauá, em Niterói, e Eisa, na Ilha do Governador, avançam na regularização de suas operações para voltar a disputar contratos públicos e privados.
O Mauá obteve certidões negativas de débito após negociar passivos tributários e encerrou o primeiro semestre com cerca de 1,7 mil trabalhadores. A empresa mantém atividades de reparo, docagem e estruturas offshore e pretende voltar a construir embarcações de apoio marítimo.
O Eisa, por sua vez, concentra-se no desmantelamento de embarcações e avalia projetos de estruturas offshore. A unidade enfrenta limitações operacionais, como restrição de calado e ausência de dique para reparos.
A presidente da Petrobras, Magda Chambriard, defendeu maior participação dos estaleiros fluminenses nas licitações da companhia. Segundo ela, a demanda precisa ser distribuída entre diferentes regiões do país.
Setor pede política industrial de longo prazo
Além do financiamento, o setor acompanha mudanças tributárias e defende condições mais competitivas diante da concorrência internacional. O Sinaval afirma que países como China, Coreia do Sul e Japão utilizam financiamento público, incentivos, encomendas e políticas industriais para fortalecer suas indústrias navais.
A entidade também critica o chamado Custo Brasil, estimado pelo governo em cerca de R$ 1,7 trilhão por ano, incluindo despesas com juros, burocracia, tributação, logística, seguros e insegurança regulatória.
Para o setor, a competitividade brasileira depende de encomendas previsíveis, crédito, garantias, regras estáveis de conteúdo nacional e continuidade dos investimentos. A avaliação é que a retomada atual pode recuperar empregos e capacidade produtiva, mas sua consolidação dependerá de uma política de Estado de longo prazo.





