UFRJ anuncia medidas após agressão entre alunos no IFCS
Direção do instituto vai orientar professores sobre conflitos e extremismo após estudante ser agredido por colegas em episódio envolvendo suposta apologia ao nazismo
A direção do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS) da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) anunciou novas medidas após a agressão entre estudantes ocorrida na unidade, no Centro do Rio. O episódio foi motivado por uma suposta manifestação de apologia ao nazismo envolvendo um aluno do curso de História.
Entre as medidas previstas está a distribuição de um guia aos professores com orientações sobre como agir diante de situações de conflito e extremismo. O material reunirá regras já existentes na universidade e no sistema de Justiça, além de informações sobre canais de atendimento, acolhimento e segurança.
“Ele é um conjunto das regras que já existem na instituição e no sistema de Justiça em relação ao que fazer em casos de conflito e de extremismo. Um de seus principais pontos é a veiculação dos canais de atendimento e acolhimento, seja para acionar segurança. O IFCS tem uma das mais atuantes comissões de combate ao assédio. Qualquer estudante que se sinta perseguido, vitimado, pode acionar essa comissão. Ela é feita por professores, técnicos e alunos.”
— Mayra Goulart, diretora do IFCS
A diretora também afirmou que pretende reforçar uma política de diálogo adotada desde o início de sua gestão, no começo do ano, com conversas entre professores e estudantes sobre procedimentos diante de episódios graves de intolerância.
Segundo Mayra, universidades vêm registrando situações semelhantes envolvendo conflitos relacionados ao extremismo e à intolerância. Ela citou casos na Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo (USP), no Instituto de Filosofia e Ciências Humanas da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) e na USP de Ribeirão Preto.
“Estamos tentando buscar o entendimento entre estudantes e professores de que a universidade é vulnerável a situações de conflito, mas que é preciso estabelecer diálogos e adotar protocolos para distensionar o ambiente, evitar a escalada desse cenário e garantir que continuemos sendo um espaço de pluralidade e defesa dos direitos humanos.”
A direção também defende o reforço da segurança no entorno do campus, com aumento do policiamento e ampliação do monitoramento por câmeras.
A Polícia Militar informou que o 5º BPM (Praça da Harmonia) mantém contato com a direção da instituição para elaborar estratégias de segurança. Segundo a corporação, a região conta com reforço do programa Bairro Presente e da Patrulha Escolar.
“O 5º BPM (Praça da Harmonia) está atuando para prevenir e coibir esses delitos. As rondas e abordagens são realizadas no entorno e nos principais acessos ao Campus da UFRJ.”
O caso envolve dois estudantes e versões diferentes sobre o que ocorreu dentro e fora da sala de aula.
Diego Costa da Silva Araújo, de 27 anos, estudante de História, foi agredido por colegas após ser acusado de fazer apologia ao nazismo. Na ocasião, ele usava uma camiseta da banda inglesa Death in June, conhecida por utilizar símbolos associados ao regime de Adolf Hitler, além de um broche com uma suástica cortada pelo símbolo universal de “proibido”.
Em entrevista ao GLOBO, Diego negou ser nazista. Segundo ele, um grupo de aproximadamente dez a 15 pessoas entrou na sala onde assistia a uma aula e começou a acusá-lo por causa da roupa e do broche.
O estudante afirmou que Deivid Lima, do curso de Direito, questionou os símbolos, deu voz de prisão a ele e disse que uma viatura policial estaria esperando na entrada da instituição. Diego declarou que deixou a sala de forma pacífica, mas foi agredido quando saiu.
“Tentei argumentar, e esse rapaz me deu voz de prisão. Em momento algum me alterei. Colaborei pacificamente porque achei que iria me explicar para uma autoridade policial. Mas não tinha viatura nem policial lá fora.”
— Diego Costa da Silva Araújo
O exame de corpo de delito realizado após o episódio apontou lesões corporais compatíveis com agressão.
Deivid apresenta outra versão. Ele afirma que foi alvo das primeiras agressões e de insultos racistas de Diego enquanto tentava conduzi-lo a uma delegacia por causa da suposta apologia ao nazismo. Diego nega ter agredido ou insultado o colega.
“Não fiz isso, não insultei. Também não agredi. Em todo momento, tive uma postura pacífica e não demonstrei qualquer tipo de reação violenta. A partir do segundo em que coloquei o pé para fora da sala, comecei a tomar chutes e empurrões. Nos três momentos em que fui espancado, temi pela minha vida.”
— Diego Costa da Silva Araújo
O estudante afirmou ainda ter sido alvo de uma tentativa de homicídio ao ser agredido por dezenas de pessoas.
Sobre a interpretação de que sua roupa representaria uma provocação ou manifestação de simpatia ao nazismo, Diego afirmou que os símbolos foram interpretados de maneira equivocada. Ele disse que considera a banda punk antinazista e que já utilizava o broche anteriormente.
“Eu não sou nazista. Meu erro foi tentar me comunicar com pessoas que já tinham chegado a uma conclusão sobre mim antes e não quiseram me ouvir.”
No décimo período de História, Diego afirmou que teme retornar ao IFCS depois do episódio.
“Sinto-me ameaçado e temo pela minha vida e pela vida de pessoas próximas a mim. Espero ter tranquilidade para voltar ao meu curso. A universidade tem que ser um espaço de pluralidade de ideias, não de violência e barbárie.”
As investigações estão divididas entre duas delegacias. A 1ª DP (Praça Mauá) apura as lesões corporais contra Diego. Já a Delegacia de Crimes Raciais e Delitos de Intolerância (Decradi) investiga denúncias de ameaça, lesão corporal, preconceito de raça, cor e etnia e injúria por preconceito contra Deivid.
“Vale esclarecer que a tipificação inicial de um registro não define a conclusão da investigação, podendo ser ajustada no curso do procedimento, à medida que novos elementos são apurados. A definição final sobre a natureza do fato decorre de uma investigação técnica e criteriosa, baseada em provas, diligências e análise de todas as evidências obtidas ao longo do inquérito.”
— Polícia Civil
A direção do IFCS também afirmou que não considera que todos os estudantes presentes tenham participado das agressões. Segundo Mayra Goulart, imagens do episódio mostram alunos ao redor de Diego tentando impedir novas agressões.
“A universidade é um espaço de paz e pluralidade. Não somos tolerantes com nenhum tipo de violência ocorrida contra qualquer pessoa.”
— Mayra Goulart
A diretora também rejeitou a ideia de que o episódio represente uma atuação política uniforme dentro da universidade e defendeu a diversidade de posições entre estudantes e professores.
Três dias após a agressão, mais de cem professores e técnicos do instituto assinaram uma carta contra o “nazi-fascismo” e a discriminação. O documento manifesta apoio a Deivid, estudante negro, e afirma que a reação à suposta apologia não deveria ser caracterizada como linchamento.
No texto, os signatários classificam Diego como “agente provocador” do conflito e defendem a adoção de medidas disciplinares pela universidade, além das providências na esfera criminal.
“Uma universidade democrática não pode ser indiferente ao fascismo. Repudiamos a caracterização da reação de autodefesa dos estudantes como um ato de linchamento: tal como os estudantes, exigimos que a instituição efetive as medidas disciplinares cabíveis em virtude do ato criminoso do estudante.”
A direção do IFCS afirma que pretende utilizar o episódio para ampliar os protocolos de prevenção e resposta a conflitos, mantendo o ambiente universitário como espaço de pluralidade e defesa dos direitos humanos.




